Após 71 anos sem interrupções, a família de José Amauri Valente decidiu não promover em 2020 o tradicional Fecha Corpo, em Monte Alegre do Sul. O anúncio foi feito exclusivamente ao Rota das Águas por Maurício Valente, um dos integrantes da família. “Conversei com o pessoal da Prefeitura de Monte Alegre do Sul há alguns dias e decidimos pelo cancelamento”, diz.
O Fecha Corpo acontece anualmente desde 1948 e arrasta centenas de turistas à estância do Circuito das Águas Paulista toda Sexta-Feira Santa. Em 2020, a data seria celebrada no dia 10 de abril.
A suspensão do evento é em consequência a pandemia mundial do novo coronavírus, causador da doença Covid-19. A medida preventiva atende as recomendações dos principais órgãos de saúde do Brasil e da Organização Mundial da Saúde (OMS).
O Fecha Corpo aconteceria, como nos anos anteriores, na casa de Zezé Valente, avô de Maurício, em frente à Praça Bom Jesus, no Centro. No endereço, o público seria recebido com uma dose de cachaça com arruda ou guiné e um pãozinho com aliche, das 6h às 9h, como reza a tradição. Maurício Valente confirmou que o evento será retomado em 2021.
Evento nos alambiques e adegas indefinido
Ao longo dos anos, a tradição do Fecha Corpo, iniciada por Zezé Valente em sua casa no Centro Histórico de Monte Alegre do Sul, chegou aos alambiques e adegas instaladas na cidade, que também recepcionam moradores e turistas com a cachaça e pãozinho e aliche. A definição sobre a realização do evento em 2020 acontece na semana que vem. É uma data especial e de grande movimento.
“Vamos nos reunir com todos os proprietários de alambiques e adegas para tomarmos a decisão final. Por enquanto, não posso adiantar nada”, diz o diretor de Cultura, Esportes e Turismo, Antônio Henrique Corsi, que se mostra preocupado com o avanço do coronavírus pela região. Até a tarde de quinta-feira (19), Monte Alegre do Sul era uma das três das nove cidades do Circuito das Águas sem casos suspeitos, confirmados ou descartados.
Entenda o Fecha Corpo
A história do Fecha Corpo, que virou lenda e tradição, em Monte Alegre do Sul, conta que o monte-alegrense José Valente adoeceu, procurou médicos, tomou remédios, sem resultado algum.
Foi então que bateu à porta da benzedeira Nhá Sabá, que o diagnosticou com uma doença espiritual. Para que fosse curado, pediu que tomasse em jejum uma dose de cachaça curtida na arruda ou guiné na Sexta-Feira Santa.
Seo Zezé cumpriu à risca a receita e curou-se. A notícia se espalhou e seus amigos e conhecidos começaram a frequentar sua casa em toda Sexta-Feira da Paixão. A cada ano a procura pela dose milagrosa crescia. Era o início da tradição e a família passou a distribuir ano após ano o chamado “fecha corpo”, receita de Nhá Sabá. Após a morte do patriarca, a Família Valente manteve a tradição em frente à Praça Bom Jesus, no Centro histórico.
Por Karina Mazzonetto Especial para Rota das Águas

